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Temperaturas



? Eu sei, sinto que meu pensamento tem um gosto amargo. Uma nova emoção de olhar e novamente me enterrar. Um abismo sempre na borda do meu último passo, esperando que com ele eu me torne pó, me torne ar, me torne nada. E então eu formulo e a minha parte minha comemora, sem saber que ao fim há a dor. E a minha suposta medalha enferruja, e a minha matéria vira água, e eu perco a minha ilusão por nem mesmo poder sonhá-la. Tenho asas na memória e mãos virgens. Dedico tempo ao nada absoluto, e me encontro sentada, frágil. Sou um animal ruminante e de cabeça baixa, esperando que ela se levante, ainda que só no momento de minha morte. Esperando que um dia a castidade me chegue, e eu não tenha mais que negar a minha consciência. Esperando que pelo universo eu bóie, metade engolida, metade livre. Metade imune, metade à mercê. Eu não quero ir, mas voltar. Se o pensamento me chegar, então também chegará a violência. E eu não quero mais ter de fugir. Eu não quero o bom, para isso existem as consciências alheias. Eu quero o caminho limpo, malfeito e perigoso. O instinto. Quero caçar pelo mundo como um animal, a boca cheia de sangue. Porque eu não quero recompensa por uma benevolência que eu não tenho, não quero ser melhor, nem mais. Eu só gostaria de poder me confessar a mim mesma, e receber a punição de ter de me olhar ainda mais de perto. De criar com as minhas próprias mãos o meu nascimento, e de um dia me levantar dessas águas e poder ver meu reflexo sem sombras. E depois disso... depois disso viver, encontrar o oco, sentar diante do que está firme. Até que meus olhos se fechem definitivamente. E eu me deixe.



Escrito por thuigosan às 22h09
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Pela manhã, a dose diária de vida em minhas mãos. E eu sequer pedi por isso, mas apenas pela lucidez. Há também essa dose? Prefiro acreditar que sim. Prefiro me enganar que sim. Se não sei da minha distância? Sim, eu sei. Como uma estátua na margem, esperando a hora certa de entrar na água. E quantos anos ainda durarão essa minha hora certa? E se eu só conseguir entrar na hora errada? E se eu quiser a hora errada? E se eu estiver certa, e não tiver hora alguma? Fraude? A fraude seria me roubar de mim mesma nesse assalto que eu desprezo tanto, mas que, também, me livra. Eu só quero a liberdade, afilnal. E driblar o caos que me devora. Ouvi que nem as palavras escritas deveriam refletir o caos, pois que elas, talvez, devessem organizá-lo. O interno caótico, informe, enfim ganhando uma moldura controlada. Então eu nem esse lugar tenho, então nem mais falar eu posso. Pois que a minha vontade mesmo era embaralhar todas essas palavras já construídas, todas essas letras geometricamente regulares, e que me angustiam em sua rigidez. Soltem-se, livrem-se, voem. Reorganizem-se indiscriminadamente; assim é muito mais raro. Assim é muito mais menos doente do que aquilo que eu conheço desde o momento em que abri meus olhos. E assim eu posso me compor com sinceridade, vez que a minha desgraça é minha e ela poderá (ou não) acordar a graça que eu carrego dentro de mim (dentro de todos nós). Peço desculpas pela bagunça, pela desorganização, pela dor de retirar toda essa terra velha e assentada que cobre nossos olhos há tanto tempo, e que nos deu essa vista aguda, elegante e mortal. Peço desculpas por ter uma alteração tão constante que mesmo em descanso não sou capaz de dominar. O meu descanso é aqui, e aqui eu não tenho modos, aqui eu sou um homem desassombrado.



Escrito por thuigosan às 13h10
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FUNDAMENTO

Anda o tempo a me massacrar. A me cobrar essa dívida que eu tento esquecer, mantendo minha existência entre a infância e a velhice. Faltam-me defesas para o que me acontece no que me é dado  hoje, e eu luto para me agarrar ao que conservo genuinamente dentro de mim, e ao que eu abdico/abdiquei/abdicarei. Ando na contramão e devagar, pois no sentido que me falta eu crio o meu, muito mais dócil, manso, seguro. Não me importa essa vida sem elos, sem rostos, sem amarras. E daí a liberdade brotando da prisão. Porque essa prisão é o vínculo, e eu o quero. Quando criamos todas essas insatisfações, essas desigualdades, esses desamores, essa solidão, parte-me o coração ver da janela o que ficou perdido. E aquele que se perdeu, por não ter conhecido rumo algum. Perder-se como modo de percepção, então, sim. Perder para se encontrar a razão. Então o espaço da cadeia e da dispersão, duas fontes dessa razão que eu já tive e que terei, mas que me falta neste momento. Ouço as marretas destruindo minhas paredes, e fico cheia de pó, e de casca, e de espaços vazios naquelas que não se desfizeram completamente. Tento organizar o que sobrou, refazendo minha casa, e tapando esses buracos. Tento diminuir esses muros, olhar mais longe, cimentar com mais ânimo e mesmo tentar uma nova cor. Quero tentar novamente. E esperar que venha o amanhã.



Escrito por thuigosan às 15h18
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CRIANÇAS

Pois, então, na nossa já conhecida multiplicidade, dói-me (e a muitas) o agravante fato de ser eu mulher. Dói-me porque não me reconheço constantemente, e por isso mantenho meus olhos pequenos. À parte tudo, já sou uma vida capaz de gerar uma outra, e isso em nada nunca me confortou. Vez que apenas gênios deveriam criar, e não eu, uma mulher esperando sempre se tornar. Não, não eu, capaz de encontrar os pesadelos todas as noites nessa minha transitória existência, infecunda. Como fecunda posso ser quando infecunda é minha vida? Como posso ganhar essa abundância se me conheço assim, improdutiva? Se isso é um mistério? Não, é apenas mais uma dor que devemos carregar, todas nós, que nos sabemos parte, sempre parte, e mesmo a criação é incapaz de nos acabar. E então eu me vejo criadora, sem querer e saber criar nada, mas ainda assim tentando me acumular. Doce ilusão das que confiam sua continuação em seus filhos, e não os veem eles mesmos, lá. A concepção não traz a compreensão. Nada do que não somos traz. A fuga de nós mesmos, sim, às vezes é só o que podemos. Às vezes é tudo o que temos. Qualquer caminho em que nunca cheguemos. Mas nos utilizemos dessa nossa pluralidade, que confunde, abala, mas que, quando conseguimos admitir todos esses nossos olhares, nos alivia um pouco a pena.



Escrito por thuigosan às 21h32
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